Alta de taxa a importados dos EUA terá efeito pequeno


Medida é retaliação contra política americana de subsidiar o algodão - afetando a concorrência nas exportações.Para especialistas, os 102 produtos taxados têm similares nacionais ou podem ser comprados de outros países

Carolina Dallolio, carolina.dallolio@grupoestado.com.br

Daqui a um mês, 102 produtos fabricados nos Estados Unidos irão pagar mais impostos para entrar no Brasil. Tudo porque o governo brasileiro, com a autorização da Organização Mundial do Comércio (OMC), decidiu aumentar as alíquotas do Imposto de Importação de veículos, alimentos, cosméticos, tecidos, entre outros, como forma de retaliar os Estados Unidos diante da recusa deles de retirar os subsídios concedidos à produção e exportação de algodão. Os americanos foram condenados no fim de um longo processo aberto pelo Brasil na OMC.

Com as alíquotas mais altas, os preços desses produtos devem subir na mesma proporção que o imposto. Mas é pouco provável que a mudança pese muito no bolso do consumidor. “Afinal, a lista de produtos selecionados pelo Brasil não inclui itens de primeira necessidade, que tenham impacto direto no orçamento das famílias”, destaca Alcides Leite, professor de Economia da Trevisan Escola de Negócios. “Além disso, são produtos também fabricados no Brasil ou que podem ser comprados de outros países que não os EUA.”

Outro ponto que deve amenizar os impactos trazidos pela mudança é o fato de as novas alíquotas se aplicarem apenas a produtos fabricados em solo americano. Ou seja, um item produzido em outro País e apenas comercializado por uma empresa dos Estados não está sujeito a essa regra.

“Nas normas do comércio internacional, o que vale é a origem do produto, e não a origem da empresa”, explica Celso Grisi, diretor da Fundação Instituto de Administração (FIA). “Se uma marca americana tem, por exemplo, uma fábrica de óculos na China e exporta o produto daquele País direto para o Brasil, a transação é uma transação China-Brasil, e não EUA-Brasil. Por isso, valem as regras do comércio entre brasileiros e os chineses – americanos ficam fora.”

Por dar margem para as empresas americanas driblarem as novas alíquotas, cabe pensar que a retaliação do Brasil aos EUA seja pouco eficaz. “Mas a medida visa a atingir o governo americano, e não as empresas”, destaca Tharcisio Souza Santos, coordenador do MBA de Economia da Faap. “Com essa postura, o Brasil pretende forçar os EUA a sentar na mesa para negociar e rever posições.”

E não demorou...

Ontem mesmo, no início da noite, uma autoridade do Departamento de Estado americano classificou como “dura” a lista de produtos sobretaxados, e, já na manhã de hoje, o conselheiro-adjunto de Segurança Nacional para Assuntos Econômicos Internacionais da Casa Branca, Michael Froman – que já estava no Brasil –, deve apresentar ao Itamaraty uma proposta de “compensação comercial” ao País como primeiro passo na negociação de uma “alternativa pacífica” às retaliações.

A lista de produtos sobretaxados terá impacto comercial de US$ 591 milhões, que se refere ao peso que o aumento do imposto terá sobre o valor final do produto.
Fonte:Jornal da Tarde