DVDteca básica

Textos de Ricardo Flaitt, assessor de imprensa da Federação dos Metalúrgicos
do Estado de São Paulo, colunista do site www.tricolorpaulista.net
,
crítico de cinema do Jornal Guarulhos Hoje e editor do site Guia de Concursos
Literários
(www.guiadeconcursosliterarios.com.br)

Brazil, o Filme - Aquarela burocrática

Por Ricardo Flaitt

Brazil – O Filme segue a mesma linha de filmes como Laranja Mecânica e 1984, onde as pessoas vivem sob um sistema social opressor, vigilante e tecnicista.

Ao contrário do que possa parecer, Brazil leva esse nome porque é embalado pela música “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, mas a trama não tem ligação direta com imagens brasileiras, a não ser pela burocracia, que é universal...

A história se desenvolve a partir de uma falha na digitação (que trocou o T pela letra B), fazendo com que o departamento de repressão do governo aprisione um simples sapateiro, acusado de terrorismo contra o sistema.

Paralelamente ao fato, o filme mostra a vida do funcionário do governo Sam Lowry, interpretado por Jonathan Pryce,  afundado numa repartição, que sonha escapar desse mundo burocrático e que têm sonhos escapistas por uma linda mulher, Jill Layton (Kim Greist).

As histórias da mulher e do funcionário vão se entrelaçar, pois Jill é filha do sapateiro acusado injustamente de terrorista. Coexistem no mundo dos sonhos, mas, na realidade, são antagônicos, pois Jill pertence a um grupo de resistência ao sistema, enquanto Sam é uma engrenagem dessa máquina governamental.

O diretor Terry Gilliam (autor também de Monty Python) faz referências, entre outras coisas, ao Estado Nazista e também aos modelos de sociedades autoritárias como o socialismo soviético. Também faz referências às histórias de quadrinhos por meio de cenários e personagens, motivo pelo qual foi muito criticado ao fazer uma “salada” de signos.

Se o riso vem da calamidade, o diretor extrai risos por meio de um roteiro non-sense, potencializando os níveis de burocracia e tecnicismo da sociedade, criando situações surreais, mas que estão próximas da nossa realidade.

Outro ponto em que Gilliam critica é a preocupação exagerada com a aparência. A eterna busca pela juventude em detrimento dos valores morais. O que também é predominante no mundo em que vivemos e que todos nós sonhamos em uma vida mais simples, mais próxima de nossos sonhos.

O Diretor de Arte de Brazil – O filme, criou um futuro sombrio, entre o moderno e o antigo, como computadores feitos parte em máquinas de escrever e monitores. Mescla o moderno com o arcaico de forma propositada, para mostrar que apesar de novas tecnologias, o sistema estatal é burocrático e ineficiente.

Brazil – O Filme, dentro de seu roteiro aparentemente sem sentido, mostra de forma criativa que vivemos mesmo sob uma sociedade absurdamente burocrática, opressora, que contradiz os instintos humanos.

Premiação – Brazil concorreu a dois Oscars, sem sucesso: Melhor Roteiro Original e Melhor Direção de Arte. Venceu, no BAFTA (equivalente ao Oscar britânico), os prêmios de efeitos especiais e desenho e produção.

Curiosidades – Terry Gilliam pretendia que o filme se chamasse "1984 and a 1/2", como forma de homenagear o diretor Federico Fellini, mas teve que trocar o nome após o lançamento de 1984 (1984), baseado na obra de George Orwell.

BRAZIL, O FILME (Brazil, 1985, Inglaterra). Ficção Científica. Direção de Terry Gilliam. Roteiro de Terry Gilliam, Charles McKeown e Tom Stoppard. Música: Michael Kamen. Direção de Arte: John Beard e Keith Pain. Edição: Julián Doyle. Fotografia: Roger Pratt. Elenco: Jonathan Pryce (Sam Lowry), Robert De Niro (Archibald "Harry" Tuttle),  Katherine Helmond (Ida Lowry), Ian Holm (M. Kurtzmann), Bob Hoskins (Spoor), Michael Palin (Jack Lint), Ian Richardson (Sr. Warrenn). 131 min. Disponível em DVD.

Sem Destino: o preço da "liberdade"

Por Ricardo Flaitt

Um dos expoentes da contracultura dos anos 60, Easy Rider mexeu com os padrões sociais da época, mostrando coisas até então desconhecidas no cinema.

Sem Destino narra a história de dois motoqueiros rumo ao carnaval de New Orleans, em busca de liberdade plena (se é que ela existe) e que saem à esmo, traficando para bancar/comprar sua “liberdade”.

Os motoqueiros apelidados de Capitão América (Peter Fonda) e Billy (Dennis Hopper) sintetizam os anseios da juventude da época, que buscava uma alternativa para se viver, um novo mundo, com novos conceitos, novos padrões, diferentes dos determinados pelo sistema capitalista.

Sem Destino não é somente uma apologia à contracultura dos anos 60. É um clássico porque questionou princípios da sociedade capitalista, em vigor até hoje.

Retrato de sua época, Sem Destino foi um dos pioneiros ao utilizar como trilha sonora grandes clássicos do rock como Steppen Wolf e Bob Dylan.

Nessa viagem (nos sentidos literal e figurado) os motoqueiros passam por ícones americanos, emergem em comunidades alternativas e também se deparam com cidadãos, que representam tudo aquilo que eles estão fugindo.

Presos, conhecem o advogado George (Jack Nicholson), que os ajuda a sair da prisão. George ingressa na viagem dos motoqueiros. O personagem de Nicholson, advogado de origem rica, representa os valores questionados pela contracultura. O desejo dos jovens de se libertarem dos valores sociais. “Os mais velhos nos traíram, a América nos traiu”.

Fonda e Hopper subvertem a sociedade ao terem o desejo de saírem livres pelo mundo, sem patrão, sem ter que pagar imposto, sem compromisso... apenas curtindo o mundo, livre se sistemas, de dogmas, de verdades criadas pelo homem. A contradição que realça a tensão liberdade x sistema é representada no fato de que eles, para conquistarem a sonhada liberdade, tem de juntar grana traficando drogas. A liberdade, para eles, é algo a ser comprado como um produto do mercado capitalista.

A liberdade, nesse mundo, além de ser relativa é ofensiva. O homem está mais preso do que imagina, mesmo longe dos cárceres. Como disseram os produtores: “A liberdade na América tornou-se uma prostituta e todos estão se aproveitando dela”.

O final de Sem Destino reafirma o modo como a sociedade, repleta de “valores”, manifesta-se frente a qualquer tentativa de um modo alternativo de vida.

Premiação – Indicação ao Oscar: Peter Fonda, Dennis Hopper, Terry Southern (roteiro), Jack Nicholson (ator coadjuvante). Festival de Cannes: Dennis Hopper (melhor estreia), indicação (Palma de Ouro).

Curiosidades – Sem Destino foi produzido com apenas 24 mil dólares e, somente em sua primeira exibição rendeu 40 milhões. O título Easy Rider é uma gíria do sul dos EUA para identificar coronel, o gigolô, o homem que vive com uma prostituta.

Sem Destino (Easy Rider, 1969, EUA). Direção de Dennis Hopper. Roteiro de Peter Fonda, Dennis Hopper e Terry. Elenco: Peter Fonda, Dennis Hopper, Antonio Mendoza, Jack Nicholson, Phil Spector. Disponível em DVD. 96 min.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa: A difícil e engraçada arte de viver a dois

Por Ricardo Flaitt

Atualmente muito se fala em Vicky, Cristina, Barcelona, filme de Woody Allen em cartaz, mas, quem já viu Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977) concordará que a nova obra está muito distante dos melhores momentos do diretor.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa conta a história do comediante de Nova Iorque Alver Singer (Woody Allen) que encontra Annie Hall (Diane Keaton), com quem pretende passar o resto de sua vida. Ou seja, um casal como qualquer outro, se não fosse os temperamentos complicados que dão o tom da comédia. Nessa eterna luta dos sentimentos humanos, brigam, voltam, amam, odeiam e proporcionam momentos que vão do lúdico ao dramático.

Apesar de negar, o personagem Alver Singer é o alter-ego de Woody Allen. Judeu e completamente neurótico, Singer transita entre o presente e o passado para tentar compreender as relações entre os casais, o sentimento humano e ao mesmo tempo as coisas cotidianas. Na história de um casal tentando se entender e ao mesmo tempo entender ao mundo, Allen conseguiu sintetizar a difícil e engraçada arte da vida a dois.

Se em alguns momentos pode parecer trágico o mundo em que vivemos também o é engraçado e patético, pois, afinal, o riso não vem da calamidade? Noivo Neurótico, Noiva Nervosa conseguiu captar os anseios do seu tempo, mas não deixar de ser um filme contemporâneo, porque, mesmo que o mundo se transforme, os sentimentos humanos e as neuroses são praticamente os mesmos de gerações e gerações passadas.

Observe a maneira como o diretor Woody Allen compôs o filme, que tem cenas inusitadas como os personagens olhando para a câmera, como se conversando com o telespectadores.

A diferença no filme de Allen é que ele nos faz enxergar a vida e também rir de nossas próprias angústias e limitações. Uma comédia imperdível.

Premiação – Em 1978 foi indicado a cinco Oscars, ficando com quatro estatuetas: melhor filme (Charles H. Joffe), melhor diretor (Woody Allen), melhor atriz (Diane Keaton) e melhor roteiro original (Woody Allen e Marshal Brickman). Indicado na categoria de melhor ator (Woody Allen).

Também foi destaque no Globo de Ouro de 1978 (EUA): Venceu na categoria de melhor atriz - comédia / musical (Diane Keaton). Indicado nas categorias de melhor filme - comédia / musical, melhor diretor, melhor ator - comédia / musical (Woody Allen) e melhor roteiro - cinema.

Curiosidades – O nome verdadeiro da atriz Diane Keaton, que namorava com Woody Allen por ocasião das filmagens, é Diane Hall, e seu apelido entre os amigos é Annie.  O nome do ator Christopher Walken aparece escrito de forma errada nos créditos do filme. Annie Hall é o filme de estréia da atriz Sigourney Weaver, que aparece bem no final do filme, interpretando uma personagem sem falas.  As roupas utilizadas pela personagem "Annie Hall" pertenciam à própria atriz Diane Keaton. Marshall McLuhan representa ele mesmo na célebre seqüência da fila do cinema. O nome do filme era para ser Anhedonia (palavra definida como a “inabilidade crônica de experimentar prazer”, mas três semanas antes da estreia foi alterado para Annie Hall.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall, 1977, EUA). Comédi. Direção de Woody Allen. Roteiro de Woody Allen e Marsahl Brickman. Elenco: Woody Allen (Alvy Singer), Diane Keaton (Annie Hall), Tony Roberts (Rob), Carol Kane (Allison). Disponível em DVD. 93 min.


Amargo Pesadelo : contra o mundo primevo

Por Ricardo Flaitt

Por mais que o homem reinvente o mundo por meio da tecnologia, a discutível segurança da cidade se perde quando se tem de sobreviver contra as forças da natureza e dos instintos dos homens mais próximos de suas raízes.

Em Amargo Pesadelo, quatro amigos urbanos de classe média resolvem fazer uma aventura: descer as corredeiras de um rio que, em breve, será represado. Assim, deixam a cidade de lado para viver fortes emoções

Num primeiro momento Amargo Pesadelo pode parecer uma aventura padrão exibida na Sessão da Tarde, com homens desafiando corredeiras em meio a uma paisagem exuberante. No entanto, o filme de Boorman é um soco no estômago. Transforma o que era belo num verdadeiro desafio pela sobrevivência, com cenas que podem chocar os mais conservadores. (ao assisti-lo, entenderá o que estou dizendo, principalmente numa cena censurada nos cinemas, depois liberada para o DVD)

Os quatro personagens condensam várias personalidades contrastantes, que dão um tempero a mais ao filme, pois, diante do perigo, cada personalidade reagirá de um modo, cada um fará um julgamento, uma nova escolha e estabelecerão uma sentença. Lewis (Burt Reynolds) é o valente desbravador; Ed (Jon Voght) é o sujeito calado, inseguro; Bobby (Ned Reatty) o típico solteirão, gorducho, fanfarrão, animal fora do habitat urbano; e, por fim Drew (Ronyy Cox), intelectualizado, repleto de princípios e moralidade.

Ao se depararem com os desafios naturais começam a sentir que a aventura não será tão simples. Somado à natureza, incluem-se os nativos (caipiras), que se comportam como se aquele espaço de terra estivesse sendo agredido pelos suburbanos. A vingança da natureza também se personifica nos moradores da região.

O homem “civilizado” das cidades, arvorado em sua organização do meio, ainda é presa fácil perante as forças das naturezas (do meio e do homem). Como Nietzsche escreveu no livro “Genealogia da Moral”, somos todos animais, temos dentro de nós um instinto para matar, que só não são exteriorizados porque foram criadas as leis. São elas que sufocam nossos desejos mais primevos.

Amargo Pesadelo é um grande filme, mas foi ofuscado e acabou esquecido pelo grande público devido ao sucesso de O Poderoso Chefão e Cabaret, que levaram praticamente tudo no Oscar. Destaque para a cena do duelo de banjos entre o caipira interpretado por Billy Redden e o intelectual Drew... antológica.

Premiação – Indicado ao Oscar nas categorias: Melhor Filme (John Boorman), Melhor Diretor (John Boorman) e Melhor Edição (Tom Priestley).

Curiosidades – O título original é Deliverance, que significa libertação. O autor do livro, James Dickey, faz uma ponta como o xerife. Para reduzir os custos de produção e dar maior realidade ao filme, os atores foram seus próprios dublês, por exemplo, Jon Voight realmente subiu aquela encosta. Com o mesmo intuito os habitantes de locais próximos foram escalados nos papéis do pessoal que mora nas colinas

Amargo Pesadelo (Deliverance, 1972, EUA). Drama/Aventura. Direção de John Boorman. Roteiro de James Dickey baseado em livro de sua autoria. Elenco: Jon Voight (Ed), Burt Reynolds (Lewis), Ned Beatty (Bobby), Ronny Cox (Drew), Ed Ramey, Billy Redden, Seamon Glass, Randall Deal, Bill McKinney, Herbert Coward, Lewis Crone,  Música: Eric Weissberg. Fotografia: Robert Richardson. 109 min. Cor. Disponível em DVD.

Outros filmes interessantes de John Boorman: Inferno no Pacífico (1968) e Esperança e Glória (1987).



Platoon: Guerra particular e universal

Por Ricardo Flaitt

Um dos melhores filmes de guerra da história do cinema, Platoon, de Oliver Stone, retrata a frustrada tentativa de intervenção dos Estados Unidos no Vietnã. A diferença em Platoon para outros filmes do gênero é que o diretor estabelece uma visão que vai do particular ao universal. Ora mostrando a guerra num plano geral, ora sob a ótima de um soldado americano.

Particular no momento em que a história é narrada em primeira pessoa, mostrando a visão do novato recruta Chris, interpretado por Charlie Sheen, o alter ego do diretor Oliver Stone, que participou de verdade da guerra. Por outro ângulo, é universal (macro) quando mostra a guerra sob a perspectiva política, dos conflitos humanos, dos interesses econômicos e da barbárie que o homem é capaz de promover.

No filme, o recruta Chris, jovem de classe média americano, alista-se voluntariamente no exército com o objetivo e o idealismo de defender sua pátria, como fizeram seu pai e seu avô. E é por meio do personagem Chris que Stone mostra as diversidades culturais dos Estados Unidos, as diferenças de classes e suas críticas ao “american way of life”.

Uma vez que os filhos dos mais abastados não colocam o peito sob a mira dos rifles inimigos, no campo de batalha vê-se que a maioria dos soldados é de origem pobre, pessoas consideradas descartáveis para a sociedade da produção americana. Ao contrário de Chris, não foram convocados, e não possuem perspectivas de uma vida decente na América. Talvez, para esses, a guerra seja pela sobrevivência em solo americano.

Bom, mas quem lê essas linhas, pensa que é um filme de guerra somente com um enfoque psicológico, sonolento, enfadonho. Mas a realidade é que Platoon possui muitas cenas de ação, imagens fortes da guerra (se é que a guerra em si já não é uma imagem hiperbólica) e que dão uma dinâmica ao filme.

A grande virtude de Platoon é que Stone conseguiu fazer um filme reflexivo sem ser politicamente correto, muito menos um tributo aos americanos. Ao contrário. Platoon mostra os horrores da guerra do Vietnã (sob a ótica de uma pessoa que esteve lá de fato) e também a luta de um soldado em conflito existencial diante de tamanha barbárie.

É um clássico, porque os soldados ali representados podem ser os soldados de qualquer outra guerra e o Vietnã também pode ser qualquer aldeia global em conflito.

Premiação – Oscar 1997 (EUA): Vencedor nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Som e Melhor Montagem . Indicações nas categorias de Melhor Ator Coadjuvante (Tom Berenger e Willem Dafoe), Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia.

Curiosidades – Johnny Depp tinha 22 anos de idade na época em que o filme foi realizado e aquela foi a primeira vez que ele saiu dos Estados Unidos, uma vez que as filmagens foram realizadas nas Filipinas. Keanu Reeves recusou o papel de Chris Taylor. O papel de sargento Barnes foi originalmente oferecido a Kevin Costner.  O orçamento de Platoon foi de 6 milhões de dólares, sendo que arrecadou a quantia de 137 milhões de dólares apenas nas bilheterias estadunidenses.

Platoon (1986, EUA). Direção e roteiro de Oliver Stone. Elenco: Tom Berenger (Sargento Barnes), Willem Dafoe (Sargento Elias), Charlie Sheen (Chris), Forest Whitaker (Big Harold), Johnny Depp (Lerner), Francesco Quinn (Rhah), John C. McGinley (Sargento O'Neill). Música: Georges Delerue. Fotografia: Robert Richardson. 120 min. Cor. Disponível em DVD


O Carteiro e o Poeta: o poder da poesia

Por Ricardo Flaitt

Até que ponto a poesia pode nos transformar e consequentemente a realidade? Para um mundo cada vez mais “cedulário” a poesia nos chega como algo mais distante da realidade. Coisa de lunáticos, de pessoas que buscam o escapismo através de traços com letras carregados de significados.

Mas a verdade é que a poesia tem um poder transformador nas pessoas. E são essas pessoas que a aplicam na realidade, que alteram suas vidas, o cotidiano, a sociedade.

Afinal, ninguém é a mesma pessoa após ler um romance ou uma poesia. Ninguém será a mesma pessoa após ler, por exemplo, A Revolução dos Bichos, de George Orwell ou terá a mesma visão de mundo após compartilhar ideias que contém os textos de Pablo Neruda ou mesmo a alma feminina nas letras de Chico Buarque. São essas obras que se entrelaçam em nossas vidas, que se agarram em nossos neurônicos, ampliando a nossa vida de mundo, expandindo nosso conhecimento, transformando-nos.

Nesse ponto que, ao contrário do que pensam os pragmáticos, a cultura tem o poder de gerar sonhos, e como já foi dito: “nada como um sonho para criar o futuro.

Minha indicação dessa semana é o filme O Carteiro e o Poeta. Um recorte na vida do poeta Pablo Neruda, vencedor do Nobel de Literatura de 1971 que, após ter que fugir do Chile perante o golpe do General Pinochet, teve que se exilar, dentre outros lugares, numa ilha da Itália.

Nessa passagem pela Itália, Neruda (interpretado por Phillip Noiret) ao lado de sua musa Matilde conhecem o carteiro Mario Ruoppolo (Masimo Troisi). Um homem simples, filho de pescador, com pouca instrução, mas que ao ter contato com o poeta começa a descobrir um mundo muito além dos limites da ilha, um mundo inteiro e uma consciência de vida realizada em sua mente por meio das conversas com Neruda.

O Carteiro e o Poeta narra não só a vida de Neruda no exílio, mas a relação que ele estabelece com o carteiro e como o conhecimento transmitido transforma a vida de um homem, que aspira compreender o mundo além de barcos e redes de pescar. Mário Ruppuolo vai adquirindo uma nova visão de mundo, suas relações com a sociedade estão em transição e muitas verdades cristalizadas começam a se estilhaçar. Dialéticamente está Mário que, “após transformarmos um árvore em canoa, nunca mais poderemos fazê-la voltar a ser árvore”. Assim, Mário já não era mais um simples carteiro e utiliza sua língua para além de selar cartas...

O filme tem momentos mágicos como a cena em que o carteiro, intrigado para saber quem era Neruda compra uma obra e começa a ler suas poesias e tenta entender o que se passa na cabeça do poeta. Em outra cena linda, Mário pergunta a Neruda o que é metáfora. Em meio aos questionamentos, Mario começa a perceber que o povo é um homem conectado com o mundo, não só o onírico, mas o mundo das pessoas, da sociedade, da política. E eis que a poesia tem o poder de transformar os homens e a sociedade. Não é uma simples coisa desligada do mundo real, ao contrário, a poesia é totalmente ligada ao mundo, às pessoas, ao seu modo de vida, à alma e à história da humanidade.

Premiação – Oscar 1996 (EUA): Venceu na categoria de Melhor Trilha Sonora Original, composta por Luis Enríquez Bacalov.  O filme também foi indicado para os prêmios de Melhor Ator (Massimo Troisi), Melhor Diretor, Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado.

Curiosidades – O ator e roteirista Massimo Troisi adiou uma cirurgia cardíaca para poder completar o filme. No dia seguinte ao término das filmagens, ele sofreu um ataque cardíaco e morreu. Como já ocorrera em Cinema Paradiso, o ator francês Philippe Noiret foi dublado por não falar italiano nem espanhol.

O Carteiro e o Poeta (Il Postino, Itália, 1994). Direção: Michael Radford. Roteiro: Anna Pavignano, Michael Radford, Furio Scarpelli, Giacomo Scarpelli e Massimo Troisi, baseado em livro de Antonio Skármeta Produção: Mario Cecchi Gori, Vittorio Cecchi Gori e Gaetano Daniele, Música: Luiz Enríquez Bacalov. Direção de Fotografia: Franco Di Giacomo. Desenho de Produção: Lorenzo Baraldi. Figurino: Gianna Gisi e Edição: Roberto Perpignani. 109 minutos. Cor. Disponível em DVD

 

Shine - Brilhante: Amor que anula

Por Ricardo Flaitt

Shine
conta a história verídica do excêntrico e genial pianista australiano David Helffgott que, em sua infância, sofreu por conviver pela presença de um pai dominador, interpretado por Armin Mueller-Stahl. Autoritário e possessivo, o pai transferiu para o filho todas as frustrações por não ter sido um grande violinista. Assim, levava os treinamentos do filho ao extremo, anulava sua infância para que David se tornasse um célebre pianista.

Reconhecido o talento do garoto num concurso da escola, David passou a ter aulas com um professor de música conceituado que, impressionado com seu potencial, consegue uma bolsa de estudos em uma renomada escola de música.

Era forçado a tocar exaustivamente.  O grande sonho do pai era que David executasse uma obra de Rachmaninoff (Sergei Vasilievich Rachmaninoff, russo, que viveu entre 1 de abril de 1873 a 28 de março de 1943). A obsessão lhe rendeu um trauma.

Durante um concurso na academia, ao tocar a obra de Rachmaninoff, David tem um surto psicótico, uma catarse, que afeta sua mente. Após o incidente, David tem suas emoções distorcidas em relação ao mundo, parece viver num mundo só seu.

Shine mostra os bastidores da vida de um artista atormentado pela figura paterna, que pelo excesso de amor acabou anulando o talento e a vida do filho. A atuação de Geoffrey Rush como David na fase adulta é espetacular, uma verdadeira aula de interpretação. Não é sem mérito que levou o Oscar de melhor em 96.

Premiação – Ganhou o Oscar de Melhor Ator (Geoffrey Rush), além de ter sido indicado em outras 6 categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Armin Mueller-Stahl), Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora - Drama e Melhor Roteiro Original.

- Ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator - Drama (Geoffrey Rush), além de ter sido indicado em outras 4 categorias: Melhor Filme - Drama, Melhor Diretor, Melhor Roteiro e Melhor Trilha Sonora.

- Ganhou 2 prêmios no BAFTA, nas categorias de Melhor Ator (Geoffrey Rush) e Melhor Som. Recebeu ainda outras 7 indicações, nas seguintes categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz Coadjuvante (Lynn Redgrave), Melhor Ator Coadjuvante (John Gielgud), Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora e Melhor Roteiro Original.

Curiosidades – O diretor Scott Hicks era um produtor de documentários para televisão antes de filmar Shine. Várias músicas da trilha sonora do filme são composições de David Helffgot.

Shine - Brilhante (Austrália, 1996), direção de Scott Hicks. Roteiro: Jan Sardi, baseado em estória de Scott Hicks. Elenco: Geoffrey Rush (David - adulto), Justin Braine (Tony), Sonia Todd (Sylvia), Chris Haywood (Sam), Alex Rafalowicz (David - criança), Armin Mueller-Stahl (Peter), Nicholas Bell (Ben Rosen), Danielle Cox (Suzie - criança), Rebecca Gooden (Margaret), Marta Kaczmarek (Rachel), John Cousins (Jim Minogue), Noah Taylor (David - adolescente), Randall Berger (Isaac Stern). Cor, 130 min. Drama. Disponível em DVD. Música: David Hirschfelder. Direção de Fotografia: Geoffrey Simpson


Seven - Os 7 crimes capitais

Por Ricardo Flaitt

Quando falamos sobre um filme policial sempre nos vem à mente um filme repleto de perseguições, tiroteios e uma edição de imagens em ritmo alucinante. Mas Seven não é bem assim...

Dirigido por David Fincher, Seven amplia os limites do policial com um roteiro inteligente em que combina, de forma equilibrada, elementos do gênero com requintes de arte. O filme não se resume a tiros e policiais tomando café e comendo rosquinhas em busca de bandidos.

Fincher narra a história de dois policiais que se deparam com assassinatos que se manifestam de forma estranha, repletos de significados e simbologias, que exigem experiência, cultura e percepção dos detetives William Somerset  (Morgan Freeman) e David Mills (Brad Pitt).

Freeman interpreta um detetive experiente, que está há sete dias de sua aposentadoria e não quer se envolver num caso complexo, enquanto Brad Pitt é o impetuoso, ansioso e ambicioso detetive que se transfere para a cidade grande e violenta em busca de aventuras.

O desafio é encontrar um serial killer refinado, culto, que mata de acordo com os sete pecados capitais: gula, preguiça, vaidade, inveja, luxúria, avareza e ira. Com esses ingredientes, Seven expande os sentidos e limites do policial e nos faz refletir sobre os valores da sociedade capitalista.

Vale ressaltar que os diferentes temperamentos dos detetives não são aleatórios no filme, pois se entrelaçam aos pecados relacionados ao assassino em série.

Com um final criativo e surpreendente, o único pecado que você cometerá após ler essa coluna é o de não assistir a esse excepcional filme.

Premiação – Por incrível que pareça, Seven conseguiu apenas a indicação ao Oscar na categoria Edição, de Richard Francis Bruce. Como já aconteceu com outros filmes, Seven agora sempre figura na lista dos melhores de todos os tempos.

Curiosidades – O roteiro foi escrito por Andrew Kevin Walker, que na época era caixa da Tower Records. Roberto Miguel Rey Júnior, conhecido como Robert Rey no reality show Dr. 90210 (no Brasil Dr. Hollywood), foi consultor médico neste filme.

Se7en – Os Sete Crimes Capitais (EUA, 1995), direção de David Fincher. Elenco: Morgan Freeman (Detetive William Somerset), Brad Pitt (Detetive David Mills), Daniel Zacapa (Detetive Taylor), Kevin Spacey (John Doe), Gwyneth Paltrow (Tracy Mills), John Cassini (Oficial Davis), Peter Crombie (Dr. O'Neill), Richard Portnow (Dr. Beardsley), R. Lee Ermey (Capitão da polícia). Cor, 127 min. Disponível em DVD.

 

O império de areia

Por Ricardo Flaitt

Considerado o filme mais caro da história do cinema (em torno de U$$ 270 milhões atuais), Cleópatra não poderia ter outra classificação senão épico. Tudo é grandioso: cenários, figurinos, interpretações, produção, fotografia, elenco, trilha sonora, etc.

Vencedor de quatro Oscar e indicado em mais cinco categorias, o filme mostra a história de Cleópatra, uma das mulheres mais poderosas do mundo antigo, interpretada magistralmente pela belíssima Elizabeth Taylor. Além da biografia da rainha o filme narra a história dos feitos de Roma, as relações com outras nações, as decisões do senado. O modo de vida da população é deixado de lado. O enfoque se dá nos principais líderes de Roma e do Egito.

Roma depende do Egito para o fornecimento de grãos. Deste modo, Júlio César (Rex Harrison) vai ao Egito para resolver uma briga interna entre Cleópatra (Elizabeth Taylor) e seu irmão, que tenta assumir o poder. César recoloca Cleópatra no trono, assegura o fornecimento de grãos e acaba apaixonando-se pela rainha. Da união nasce Cesário, verdadeiro herdeiro de dois mundos.

Os romanos não aceitam o casamento entre Júlio César e Cleópatra. Ao retornar à Roma, César é assassinado no Senado. Dividida em regiões, agora. Roma é comandada por Otávio (Roddy MacDowall), que se intitula o novo César, enquanto Marco Antônio comanda outros domínios do Império.

Mas eis que acontece uma nova reviravolta. Marco Antônio, em visita diplomática ao Egito, também se apaixona por Cleópatra. Casa-se e, com isso, gera um novo impasse com Roma. Manipulado pela inteligente e ambiciosa Cleópatra, Marco Antônio se indispõe com Roma.

São quatro horas de filme que mostram a vida de Cleópatra e o jogo político na antiguidade. A alternância de poder, o jogo de interesses, os bastidores, as articulações para se preservar no poder e os respectivos métodos. Sem dúvida um filme que além de revelar a vida da época, mostra como se operava a política entre os líderes de um povo.

Cleópatra é muito mais do que uma cinebiografia é uma obra reveladora do ponto de vista histórico, pois os procedimentos políticos da antiguidade não são muito diferentes dos aplicados atualmente, o que determina a condição de clássico.

Curiosidades - Cleópatra é o filme mais caro de todos os tempos. Na época de sua realização sua produção custou US$ 44 milhões. Se esta quantia fosse reajustada até em relação ao dólar em 1999, o filme custaria na verdade US$ 270 milhões. - Durante Cleópatra, Elizabeth Taylor trocou de figurino 65 vezes, sendo até hoje um recorde para um filme feito para o cinema. - Elizabeth Taylor foi o 1ª intérprete de Hollywood a receber US$ 1 milhão por um único filme, por sua participação em Cleópatra

Premiações - Ganhou 4 Oscars, nas seguintes categorias: Melhores Efeitos Especiais, Melhor Fotografia - Colorido, Melhor Figurino - Colorido e Melhor Direção de Arte - Colorido. Foi ainda indicado em outras 5 categorias: Melhor Filme, Melhor Ator (Rex Harrison), Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora e Melhor Som.

Cleópatra (Cleopatra, 1963), direção de Joseph L. Mankiewicz. Elenco: Elizabeth Taylor (Cleópatra), Richard Burton (Marco Antônio), Rex Harrison (Júlio César), Pamela Brown (Alta Sacerdotisa), George Cole (Flavius), Hume Cronyn (Sosigenes), Cesar Danova (Apollodorus) e Kenneth Haigh (Brutus). Fotografia: Leon Shamroy. Música: Alex North. Figurino: Vittorio Nino Novarese, Renié e Irene Sharaff. Edição: Dorothy Spencer. Roteiro: Sidney Buchman, Ranald MacDougall e Joseph L. Mankiewicz, baseado em livro de Carlo Mario Franzero

Western árido e sem mocinhos

Por Ricardo Flaitt

Quando muita gente já pensava que o Western estava esgotado em Hollywood, eis que, em 1992, Clint Eastwood fez ressurgir o gênero mais antigo do cinema com Os Imperdoáveis. Um filme onde o oeste americano é projetado sem mocinhos nem bandidos, num território feito por homens, que lutam para sobreviver de acordo com o que aquele mundo árido lhes oferece.

Os Imperdoáveis narra a história de um pistoleiro aposentado interpretado por Clint Eastwood (Bill Munny), aparentemente redimido, vivendo com os filhos num sítio que, após convite de um jovem pistoleiro, decide retomar suas antigas atividades em nome de uma recompensa de 1.000 dólares. A missão é se vingar de dois capangas que cortaram o rosto de uma prostituta. Para isso, Bill chama o antigo parceiro Ned Logan (Morgan Freeman).

O contraponto entre os pistoleiros Bill, Ned Logan (Morgan Freeman) e o jovem é o xerife Little Bill Daggett (Gene Hackman), que pelo fato de ter esquema com os fazendeiros locais, ignorou o ato praticado pelos vaqueiros. Mas a notícias já tinha se alastrado pelo oeste e chegado aos ouvidos de caçadores de recompensas. Little Bill quer evitar a presença de pistoleiros na cidade, mas o dinheiro fala mais alto.

Dentre os pretendentes à recompensa, destaque para a pequena (mas grandiosa) participação do veterano ator Richard Harris, que interpreta o pistoleiro Bob, o inglês.

Os Imperdoáveis é um retrato fiel da brutalidade humana, do instinto animal e de sobrevivência que, seja no velho oeste ou nos dias atuais sempre se projeta na realidade. Destaque para a linda fotografia de Jack N. Green, contrastando paisagens belíssimas, iluminadas e poéticas com um oeste árido, sem lirismo, brutal, soturno, sombrio e selvagem.

Curiosidades – Bill Munny é uma retomada de alguns personagens interpretados por Eastwood na consagrada trilogia do diretor Sergio Leone: Por um Punhado de Dólares (1964), Por Uns Dólares a Mais (1965) e Três Homens em Conflito (1966).

Os Imperdoáveis (The Unforgiven, 1992), direção e produção de Clint Eastwood. Western. Música: Lennie Niehaus. Fotografia: Jack N. Green. Elenco: Oskar Clint Eastwood (Bill Munny), Gene Hackman (Little Bill Daggett)
Morgan Freeman (Ned Logan), Richard Harris (Bob, o inglês), Jaimz Woolvett (Schofield Kid), Saul Rubinek (W.W. Beauchamp), Frances Fisher (Strawberry Alice).  Cor. 131 min. Disponível em DVD.

Premiações: Venceu quatro Oscar: Melhor filme (Clint Eastwood), melhor diretor (Eastwood), melhor ator coadjuvante (Gene Hackman) e melhor edição (Joel Cox). Também recebeu indicação ao Oscar para melhor roteiro, melhor ator, direção de arte, fotografia e som.


A vingança através da aparência

Por Carina Baptista

Atrás de uma voz mansa esconde-se a jovem mulher manipuladora, obstinada e enigmática Irena, imigrante ucrâniana residindo na Itália com o objetivo de romper dúvidas de um passado trágico e melancólico.

Irena, interpretada pela atriz russa Kseniya Rappoport, mostra sua boa forma em uma das cenas trágicas em busca da sobrevivência quando quebra o paradigma de que mulheres de programa são extremamente profissionais.

Ela se apaixona por um de seus clientes no qual vive uma intensa relação, perante o tumulto, mais uma gravidez foi inevitável e novamente foi submetida pelo sequestrador e torturador Muffa, interpretado por Michele Placido, a dar a criança, mas, desta vez ela saberá quem é o pai.
 
Este será o ponto de partida para que crimes "acidentais" comecem acontecer. Nem mesmo a fragilidade desta criança chamada Tea Adacher, interpretada por Clara Dossena, supostamente "filha" de Irena foi poupada pela obsessão do drama.

Todos nós seres humanos estamos tendenciados para os mais diversos sentimentos entre o amor e o ódio, em "A desconhecida" o diretor Giuseppe Tornatore, deixa nítido na cena em que Irena utiliza dos seus resquícios para tentar curar a doença da menina Tea. Nem sempre ações impulsivas serão a solução dos problemas.
 
Curiosidade: Destaque para Ennio Morricone na trilha do filme. “A música”, ele continua, “foi composta juntamente com o roteiro e foi tocada durante as filmagens em algumas cenas onde a protagonista canta o tema principal do filme.”

A Desconhecida (La Sconosciuta, Itália, França, 2006). Direção: Giuseppe Tornatore. Música: Enio Morriconne. Elenco: Xenia Rappoport, Michele Placido, Claudia Gerini, Margherita Buy, Pierfrancesco Favino, Piera Degli Esposti, Clara Dossena, Alessandro Haber, Ángela Molina, Pino Calabrese, Nicola Di Pinto, Gisella Marengo.

Premiações: Prêmio do Público no festival de Moscou, cinco prêmios David di Donatello (oficial do cinema italiano): filme, diretor, atriz (Kseniya Rappoport), fotografia e música.
 
Carina Baptista é estudante de Jornalismo.


Fahrenheit 451: Um mundo sem livros

Por Ricardo Flaitt

Você conseguiria imaginar o mundo sem livros? Esse é o tema de Fahrenheit 451, de François Truffaut.

Num mundo futuro imaginário, as pessoas vivem sob um sistema totalitário, em que os livros são proibidos, pois, de acordo com o Estado, eles criam diferenças, geram desejos e frustrações nos seres humanos.

Há um diálogo no início do filme entre os personagens Guy Montag (Oskar Werner), um membro do Departamento Fahrenheit 451, responsável em encontrar e queimar os livros, e Clarisse (Julie Christie ), professora afastada pelo sistema e apaixonada por leitura.

Clarisse: Diga-me, esse número que vocês usam, o que significa? Por quê 451 e não 813 ou 121?
Montag: Fahrenheit 451 é a temperatura em que o papel dos livros incendeia e começa a queimar
Clarisse: Eu gostaria de lhe perguntar outra coisa, mas não ouso.
Montag: Vá em frente!
Clarisse: É verdade que há muito tempo os bombeiros apagavam incêndios em vez de queimarem livros?
(...)
Clarisse: Por quê queimar livros?
Montag: É um trabalho como qualquer outro. Bom trabalho, com muita variedade. Segunda queimamos Henry Miller; terça, Tolstoi; quarta, Walt Whitman; sexta, Faulkner e sábado e domingo Schopenhauer e Sartre. Queimamo-los até ficar cinza e depois queimamos as cinzas. É o nosso lema oficial. Os livros são apenas lixo. Não tem interesse nenhum.
Clarisse: Então, por que ainda há pessoas que os lêem sendo tão perigosos?
Montag: Precisamente, porque é proibido. Porque faz as pessoas ficarem infelizes.
Clarisse: Acredita nisso mesmo?
Montag: Sim. Livros perturbam as pessoas, tornam-as anti-sociais. (...)

O disciplinado membro da Fahrenheit 451, Montag, começa a entrar em crise existencial. Não vê mais sentido no seu trabalho. Responsável em queimar livros, passa a ter curiosidade para saber o que eles contêm de tão proibidos e perigosos. Montag leva um livro para casa. Ao lê-lo descobre um mundo mágico, distante da vida insossa, tecnicista e pragmática imposta pelo sistema.

A partir daí, Montag já não se enquadra mais no sistema. Entra em colapso e passa para o lado da resistência, até se juntar com os homens-livros. Imagem genial criada pelo diretor Truffaut da ligação do homem com a literatura, no sentido amplo.

Curiosidades – Os créditos iniciais do filme não são escritos, mas narrados, para antecipar o clima de leitura proibida. Nesse momento, são mostradas várias antenas de TV nas casas. Jean-Louis Richard e François Truffaut, baseado em livro de Ray Bradbury

Fahrenheit 451 (Inglaterra, 1966), direção  François Truffaut. Jean-Louis Richard e François Truffaut, baseado em livro de Ray Bradbury. Música: Bernard HerrmanFicção. Elenco: Oskar Werner (Guy Montag), Julie Christie (Linda / Clarisse), Cyril Cusack (Capitão), Anton Diffring (Fabian), Anna Palk (Jackie). Cor. 112 min. Disponível em DVD.

Premiações: BAFTA 1967 (Reino Unido), Indicado na categoria de Melhor Atriz (Julie Christie), Festival de Veneza 1966 (Itália) e indicado ao prêmio Leão de Ouro.

Lavoura Arcaica: Filho pródigo às avessas

Por Ricardo Flaitt

Lavoura Arcaica narra a história de André (Selton Mello), que sai de casa por não suportar a pressão paterna e a rigidez de uma família de libaneses, com fortes tradições, que vivem isoladas numa fazenda.

Diante do abandono, o pai (Raul Cortez), manda que Pedro (Leonardo Medeiros), o primogênito da família, vá à cidade buscar André para retornar e reconstruir a família. Pedro encontra André numa pensão. Perdido, sem destino, André conta ao irmão os reais motivos que o levaram a abandonar a família. André queria sorver o mundo além das divisas da fazenda e conhecer outras coisas além dos limites das tradições familiares. Mas existe um problema muito maior que o sufoca e o perturba: a paixão incestuosa pela irmã mais nova, Ana, interpretada por Simone Spoladore.

André regressa à família. Mas, ao contrário do que acontece na história do Filho Pródigo, o retorno só realça os conflitos e confirma a distância que existe entre o mundo que André deseja para si e o mundo traçado pelos seus pais.

O filme é uma adaptação do livro homônimo de Raduan Nassar. O diretor Luiz Fernando de Carvalho transpôs trechos do livro para os diálogos dos personagens. Fato que distanciou alguns espectadores menos exigentes acostumados com diálogos prático e de linguagem rápida.

Exala poesia em Lavoura Arcaica. Um filme sensível, com imagens belíssimas do diretor de fotografia Walter Carvalho, atuações perfeitas, consolidando-se, sem exagero, como um dos melhores filmes já realizados na história do cinema mundial.

Muitos críticos apontaram a extensa duração do filme como um ponto negativo, mas a verdade é que Lavoura Arcaica é uma obra-prima, que não perde sua força no tempo. Um filme essencial para quem gosta de cinema e para quem ainda tem preconceito com o cinema nacional.

Curiosidades – Foi o primeiro longa-metragem de Luiz Fernando de Carvalho. O filme foi realizado inteiramente em uma locação, em uma fazenda do interior de Minas Gerais. Nela, os atores e a equipe técnica passaram nove semanas, durante as quais aprenderam a trabalhar a terra, ordenhar, fazer pão, bordar e dançar como uma família de origem libanesa e rural. O próprio autor do texto original, Raduan Nassar, esteve presente durante esta etapa.

Lavoura Arcaica (Brasil, 2001), direção de Luiz Fernando de Carvalho. Drama. Elenco: Selton Mello, Raul Cortez, Juliana Carneiro, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros, Caio Blat. Cor. 163 min.

Premiações: Grande Prêmio BR de Cinema 2002; Melhor filme, melhor fotografia e melhor trilha sonora no Festival de Cartagena; Prêmio do Público no Festival de Buenos Aires do Cinema Independente (2002), dentre outros.



Cinema Paradiso: O poder e a magia do Cinema

Por Ricardo Flaitt

Quem nunca se emocionou ao assistir um filme? Quem não se recorda dos filmes que marcaram nossa infância? O cinema tem esse poder de nos fazer refletir sobre as nossas vidas. Segundo o crítico Edmar Pereira, “o cinema tem a capacidade nos fazer conjugar infinitos verbos”.

Cinema Paradiso narra a história do consagrado cineasta Salvatore (Jacques Perrin) que recebe o telefone de sua mãe, comunicando que o projecionista Alfredo morreu. A morte de Alfredo desencadeia as lembranças de infância no diretor...

E são as memórias de infância de Salvatore que serão projetadas em Cinema Paradiso. O consagrado diretor relembra o tempo em que era simplesmente o menino Totó (Salvatore Cascio), morador de uma cidadezinha da Sicília (Itália), que teve sua vida transformada ao conhecer o projecionista do único cinema da cidade, Alfredo, intepretado por Phillip Noiret.

Totó conhece o cinema com Alfredo. Estabelecem uma grande amizade em que o cinema e a vida se entrelaçavam. Giuseppe Tornatore mostra todo o encanto, os personagens folclóricos e a vida nas cidadezinhas, num tempo em que não havia televisão e o cinema era a atração da cidade.

Uma das cenas mais lindas da história do cinema é o momento em que Alfredo projeta o filme num paredão de uma casa, para que todos que ficaram de fora também possam ver ao filme.

Vi Cinema Paradiso pela primeira vez ao lado de meu pai (João Flaitt), hoje com 70 anos, e que quando menino e adolescente, também trabalhou num cinema na cidade de Itapeva. E emocionei-me ao vê-lo, com lágrimas nos olhos, ao emergirem suas lembranças dos tempos de menino. Hoje entendo que não é à-toa que amo tanto cinema...

Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, que era para ser uma triste história sobre os fechamentos das salas tradicionais de exibição acabou se tornando uma das maiores obras sobre o poder e a magia do cinema. Lírico e emocionante. Sem dúvida está entre os melhores filmes já realizados. Reparem na trilha sonora emocionante criada pelo genial Ennio Morricone.

Curiosidades – Fracasso na Itália, Cinema Paradiso ganhou o mundo e os corações das pessoas. Salvatore Cascio, o menino Toto, foi escolhido entre as crianças da região em que as filmagens aconteceram. O fato de ter o mesmo nome e apelido do personagem chamou a atenção do diretor. Mas o que lhe rendeu o papel foi ter decorado todas as falas e marcações de uma cena durante os testes.

Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso 1990), direção e roteiro de Giuseppe Tornatores. Drama. Elenco: Antonella Attiu, Enzo Cannavale, Leo Gulotta, Marco Leonardi, Puppella Maggio, Agnese Nasso, Leopoldo Trieste, Salvatore Cascio, Jacques Perrin e Phillipe Noiret. Música de Ennio Morricone.Colorido, 123 min.

Premiações: Ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes, empatado com Linda Demais Para Você e o prêmio de Melhor Pôster no César.

Veja também outros filmes do diretor Giuseppe Tornatore: Estamos todos Bem (1989), A lenda do pianista do mar (1998), O homem das estrelas (1995) e Maleña (2000).

Cinema: O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

As pequenas grandes coisas da vida

Por Ricardo Flaitt

A vida compõe-se e revela-se em sua plenitude nos pequenos gestos, nos pequenos atos, em pequenos momentos que se entrelaçam em meio ao turbilhão mecânico do cotidiano.

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain narra a história de uma menina que desenvolve uma sensibilidade enorme pelo fato de viver sempre isolada das pessoas. Esse distanciamento estabeleceu uma relação diferente com as coisas e os seres, desenvolveu um jeito especial dela enxergar e lidar com o mundo.

Amélie (Audrey Tautou) leva uma vida aparentemente insossa. Sem namorado, sem amigos, com um pai indiferente e uma mãe neurótica, trabalha como garçonete ao lado de pessoas comuns, com seus problemas rotineiros, neuras, carências e decepções.

Mas a vida de Amélie rompe a monotonia ao encontrar uma caixinha atrás do azulejo do seu banheiro, contendo “pequenas” lembranças de um menino que morara lá por volta de 1950. Diante disso, resolve encontrar esse menino, agora já um homem, para lhe entregar seu tesouro de infância.
A reação do homem ao encontrar a caixinha com suas recordações desencadeia em Amélie uma nova percepção e um novo sentido para sua vida.

Amélie sente que pode ajudar também as pessoas a “quebrarem” o ritmo insosso e insano do cotidiano. Com essa nova relação com o mundo, acaba expandido seu universo particular e descobre o Amor. Amélie apaixona-se pelo jovem Nino Quincampoix (Mathieu Kassovitz ), que também possui uma vida à margem do que é estabelecido como certo nesse mundo mercadológico.

Ao mesmo tempo em que encontro gera um sentido para sua vida, tenta também com que todos ao seu redor quebrem a rotina e encontrem a felicidade.

Numa fronteira entre o conto de fadas e a realidade, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, embalado pela excelente trilha sonora de Yann Thiersen, revela que o valor da vida está nas pequenas grandes coisas do cotidiano. Um filme para ver e rever ao longo da vida...

Prêmios - Recebeu 5 indicações ao Oscar, nas seguintes categorias: Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia, Melhor Som e Melhor Roteiro Original. Recebeu uma indicação ao Globo de Ouro, na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Recebeu 13 indicações ao César, nas seguintes categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz (Audrey Tautou), Melhor Ator Coadjuvante (Rufus e James Debbouze), Melhor Atriz Coadjuvante (Isabelle Nanty), Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Edição, Melhor Desenho de Produção, Melhor Trilha Sonora, Melhor Som e Melhor Roteiro.

Curiosidades - O namorado de Amelie no filme é, na vida real, o diretor de cinema Mathieu Kassovitz, autor do ótimo filme O Ódio (La Haine, 1995), que narra a história de três imigrantes tentando sobreviver numa Paris racista.

Os tons verdes, vermelhos e azuis que predominam e dão um ar ainda mais de fábula ao filme. Os tons são inspirados na obra do artista plástico brasileiro Juarez Machado.

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux Destin d´Amélie Poulain, 2001), de Jean-Pierre Jeunet. Comédia/Romance – Colorido – 122 min.

Veja também outros filmes de Jean-Pierre Jeunet: Delicatessen (1991) e Ladrão de Sonhos (1995).


Moby Dick: ódio e obsessão


Por Ricardo Flaitt

A versão cinematográfica de John Huston para o clássico de Moby Dick é um dos casos em que a adaptação pode ser considerada tão boa quanto a obra original. Huston conseguiu captar em imagens a grandiosidade da obra de Herman Melville (1819-1891).

Narrado em primeira pessoa, história de Moby Dick é contada por Ishmael (Richard Basehart), marinheiro que busca uma nova aventura na cidade portuária. Lá, encontra um navio baleeiro, o Pequod, da cidade de Natucket, o Pequod, que partia em direção ao Oceano Pacífico.

Huston preservou o texto literário, reproduziu diálogos inteiros de forma natural. Transpôs para as telas o peso da luta épica entre o homem (Ahab) e a natureza (Moby Dick), sem que a história perdesse seu espírito de aventura, de entretenimento.

O navio era capitaneado por Ahab (Gregory Peck), que foi vítima de um cachalote branco, imenso, que numa batalha arrancou-lhe a perna. A partir desse confronto, Ahab fez de Moby Dick o motivo da redenção de sua vida. Deixou todos os interesses econômicos de lado e fez da viagem a sua busca por Moby Dick: que se tornou uma obsessão, sua luta insana, auto-destrutiva e até redentora.

Genial como John Huston conseguiu recriar a atmosfera momentos antes de Ahab se deparar com Moby Dick. Sem vento, como se o mundo entrasse num vácuo de tempo.

Moby Dick consegue ser um clássico de aventura e também uma viagem ao universo do homem perante as forças da natureza.

Curiosidades – Orson Wells, diretor de “Cidadão Kane”, considerado o melhor filme de todos os tempos, faz uma ponta como o Padre Mapple, que seleciona e abençoa os marujos do navio Pequod.

O barco usado pelo Capitão Ahab e sua tripulação neste filme é o mesmo do clássico da Disney “A Ilha do Tesouro”. Ele passou por uma completa reforma para aparecer nesse filme.

MOBY DICK (Moby Dick, 1956), de John Huston. Inglaterra – Aventura/Clássico – cor – 115 min. Disponível em DVD.

Elenco: Gregory Peck, Orson Welles, Richard Basehart, Leo Genn, James Robertson Justice, Harry Andrews, Friedrich Ledebur, Bernard Miles, Edric Connor, Noel Purcell, Mervyn Johns, Joseph Tomelty


O Último Tango em Paris: o Amor além dos valores sociais


Por Ricardo Flaitt

Seria o Amor uma mera invenção do homem? Mas o que representa esse sentimento além dos valores atribuídos e incorporados pela sociedade? Esses são os temas que entrelaçam uma história aparentemente simples, mas que questiona um dos principais sentimentos humanos.

Em O Último Tango em Paris, Bertolucci revela o Amor e seus dramas, sem rótulos, o Amor incondicional, com suas dores e a eterna incompreensão desse sentimento tão real e ao mesmo tempo tão abstrato.

Marlon Brando interpreta Paul, um americano de meia-idade que vê sua vida ruir com o suicídio da mulher. Ao caminhar pelas ruas de Paris encontra uma jovem parisiense, a qual terá viverá uma paixão imensa por três dias.

A vida dos personagens principais (Jeanne e Paul) se realiza num quarto sem mobília. Sem se conhecerem, envolvem-se intensamente e iniciam uma verdadeira reconciliação de si mesmos através do sexo, de forma mais instintiva possível. Ali, sem estipular regras, sem estabelecer qualquer contato com o mundo lá fora, desnudam a si e ao mundo. Constroem um mundo distante dos padrões sociais, onde impera os sentidos e desconstroem-se perante o mundo.

Para que os instintos sobreponham às regras sociais eles estabelecem entre quatro paredes que a única regra é não falar nada sobre as vidas pessoais No segundo encontro, Jeanne (interpretada por Maria Schneider) diz: “é lindo não saber de nada!”. Chegando ao extremo, substituem os próprios nomes por grunhidos. Assim subvertem o mundo, seus significados e os fetiches por uma vida onde o instinto sobrepõe. Talvez o verdadeiro mundo, onde as sensações prevalecem sobre os valores instituídos pela sociedade.

Numa cena marcante para o cinema e que ficará gravada na mente de muitas gerações, a jovem Jeanne em diálogo com Paul: “Vou falar-lhe de segredos de família, essa sagrada instituição que pretende incutir virtude em selvagens. Repita o que vou dizer: sagrada família, teto de bons cidadãos. Diga! As crianças são torturadas até mentirem. A vontade é esmagada pela repressão. A liberdade é assassinada pelo egoísmo."

Bertolucci tinha apenas 32 anos quando dirigiu O Último Tango em Paris. Sem dúvida, uma obra-prima do cinema, madura, reveladora, provocadora e que nos faz repensar todos os nossos valores.

Curiosidades - Marlon Brando não usava maquiagem e praticamente improvisou todas as suas falas, fazendo com que o personagem se confundisse com o ator real. Lançado em 1972, teve sua exibição proibida no Brasil até 1979.

O Último Tango em Paris (Last tango in Paris, 1972), de Bernardo Bertolucci. Franca/Itália – Drama – cor – 130 min. Disponível em DVD.


Queimada: Uma aula de política



Por Ricardo Flaitt, com a colaboração do sociólogo Marco Antonio Mota

 “Queimada é uma das centenas de Ilhas das Antilhas. O nome Queimada deve-se ao fato dos portugueses terem de queimar a ilha para vencer a resistência dos índios. Quase todos os nativos foram mortos. Trouxeram então escravos da África para trabalhar nos canaviais”. A bordo de um navio, um tripulante explica ao diplomata inglês, Willian Walker (Marlon Brando) as características da ilha. Assim começa Queimada, filme de Gillo Pontecorvo.

Todos os movimentos do homem são muito bem pesados e medidos. Não existe nada aleatório no jogo político mundial. Willian Walker (Marlon Brando) chega à Queimada com a missão de mudar a ordem do poder local, quebrar o monopólio português sobre a cana-de-açúcar para atender aos interesses da Coroa Inglesa. Mas como promover a ordem estabelecida em Queimada? Para isso, Walker (Brando) tem de encontrar/forjar um líder entre a população para deflagrar a revolução.

Willian vê essa possibilidade no escravo José Dolores (Evaristo Marquez). Assim incita seus anseios de liberdade levando-o à condição de revolucionário. Com o discurso de que sua intenção é acabar com a exploração dos negros, Walker manipula José Dolores e sua liderança para alcançar os interesses econômicos liberais da Inglaterra. Hábil, astuto, maquiavélico, Walker une dois interesses: o anseio dos negros para se libertarem e, ao mesmo tempo, a mudança do centro do poder da ilha.

Com José Dolores consolida a revolução. Os negros depõem o governo, mas o ex-escravo descobre que não seria ele o governante do país. Indignado, assume o poder à força.

Mas seu “mandato” não dura muito, pois governar não é tão simples como os sonhos dos românticos e dos idealistas. Willian Walker (Brando) questiona o então presidente de Queimada, José Dolores: “Quem serão seus ministros? Com quem você irá negociar?...”. Ou seja, como comandar o País e seus inúmeros interesses que permeiam? Com olhar perplexo, Dolores se vê perdido, sem a dimensão de que governar é preciso muito preparo.

Em outro diálogo carregado de ironia, Walker fala a Dolores: “A civilização é muito complicada”. Diante desse impasse, Dolores resolve fazer um pacto. Concorda que o país seja governado por outro representante, desde que sejam feitas algumas mudanças, como a libertação dos escravos.

Após nove anos, Willian Walker (Brando) retorna à Queimada, que vive sob uma ditadura. Dolores já não estava no poder e voltara a ser um revolucionário. Mas agora Walker não está mais “precisando” de Dolores, uma vez que os que estão no poder obedecem à “Rainha”. A resistência de Dolores precisa ser eliminada. Dolores precisa ser morto e passa a ser caçado como inimigo do Estado.

Cabe aqui perfeitamente uma declaração de Maquiavel: “Os homens mudam de governantes com grande facilidade, esperando sempre uma melhoria. Essa esperança os leva a se levantar em armas contra os atuais. E isto é um engano, pois a experiência demonstra mais tarde que a mudança foi para pior”.

Os governantes fazem com que o povo acredite que eles ocuparão o poder e terão oportunidade de decidir seus destinos, mas, ao final, constata-se, no círculo vicioso da História, que o povo, ainda que sob uma nova roupagem, continua a ser “massa de manobra” daqueles que detém o capital e o conhecimento, já que o saber também é uma forma de poder.

Queimada é uma aula de política, envolve temas sobre um determinado período da História (inclusive do Brasil) e a relação do homem e seus interesses. Essencial para se entender os mecanismos do mundo. Queimada não tem a pretensão enfadonha de narrar uma história romântica dos oprimidos. É um grande filme porque mostra como o funciona o mundo. Não defende opressores nem oprimidos, mas mostra com inteligência como as coisas operam na política, com todos os seus jogos e interesses.

Curiosidades – No filme, Queimada é uma ilha portuguesa, mas a verdade é que foi rodado na Colômbia. Outro ponto é que Portugal não colonizou nada nas Antilhas e, num diálogo, Brando explicou erroneamente: "Você sabe que Portugal e Inglaterra são inimigos tradicionais" (isso acontecia com a Espanha, Portugal sempre foi aliado da Inglaterra).

Evaristo Marquez, que interpretou José Dolores nunca tinha sido ator e muito menos tinha visto um filme no cinema.

Queimada (Burn!, 1968), de Gillo Pontecorvo. Drama. Elenco: Marlon Brando, Renato Salvatori, Norman Hill, Evaristo Marquez, Tom Lyons. Música de Ennio Morricone.Colorido, 132 min.

Veja também outros filmes do diretor Gillo Pontecorvo: A Batalha de Argel (1966) e Kapò (1959).